18 maio, 2006

limpeza



Certas emoções quando sobem, saem como vómitos.
Em qualquer dos casos, bem vistas as coisas, por mais desagradável que seja
trata-se do reconhecimento daquilo que estava podre ou era indegesto e, se expelido,
promove a limpeza interior e a recuperação do equilíbrio e bem-estar.

Há apenas que ter o cuidado de não vomitar em cima de ninguém o veneno que abrigámos cá dentro!


Como me disse uma vez uma sábia, a verdade não tem de justificar nada, apenas esclarecer.

A água limpa e a verdade clarifica. Claro como água!

17 maio, 2006

problemas de visão


Segundo um estudo sociológico recente, encomendado pela Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, metade do Portugueses vê mal!

“55,8% dos inquiridos têm problemas de visão, sendo que 43,6% têm Miopia [dificuldades em ver ao longe], 24,2% sofrem de Hipermetropia [dificuldades em ver ao perto] e 18,7% Astigmatismo [visão desfocada].”



Desconfio que ... é a visão em geral e em particular...


Conversa entre sr. Patrão e sr. Empregado

Sr. Patrão – Pois é sr. Empregado... isto não está nada bem. Este ano não vamos poder dar aumentos a ninguém.

Sr. Empregado - ...

Sr. Patrão – A situação da empresa não está boa. Além de não termos tido lucro, ainda tivemos prejuízo... a empresa está a atravessar uma grave crise...

Sr. Empregado
- ...

Sr. Patrão – A economia nacional está no estado em que está e isso reflecte-se nas empresas...
Gostava muito de comunicar-lhe um aumento, mas infelizmente este ano já não vai ser possível... quem sabe no próximo ano...

Sr. Empregado - ...

Sr. Patrão – Temos de continuar a semear! O sr. Empregado é um funcionário que tem dado provas do seu valor, e um dia, quando ultrapassarmos esta crise, irá com certeza colher os frutos do seu empenho...

Sr. Empregado - ...

Sr. Patrão – Felizmente estamos a conseguir evitar fazer cortes no pessoal... e, olhe... apesar de estas não serem as melhores notícias, a verdade é que é uma grande sorte não ter de estar aqui a tratar do seu despedimento... Nesta altura, tendo em conta o estado do país e da empresa, é muito bom poder dar-lhe esta notícia: não vou dar-lhe um aumento, mas também não vou despedi-lo...

Sr. Empregado – Sim, sr. Patrão... eu sei que tenho imensa sorte em ter este emprego!

Sr. Patrão – Estamos a passar por uma crise terrível! Terrível!

Sr. Empregado – Pois...

Sr. Patrão – Mas estou confiante que com o empenho de todos, e sobretudo com o seu, este mau momento será ultrapassado!

Sr. Empregado - ...

Sr. Patrão – Conto consigo para nos ajudar! Conto com o seu entusiasmo e motivação. Tenho a certeza que, juntos, daremos a volta a isto!

Sr. Empregado - ...

Sr. Patrão – Vamos lá trabalhar com garra, certo?!

Sr. Empregado – Sim sr. Patrão!


Entretanto, em outro gabinete, numa outra empresa...

Sr. Empregado
– Pois é sr. Patrão isto não está nada bem. Este ano não vou poder trabalhar como até aqui... vou ter de abrandar...

Sr. Patrão – Como?

Sr. Empregado – A minha situação piorou. Além de não ganhar mais, tenho ainda mais despesas... A minha vida está a atravessar uma grave crise... e estou a ficar cada vez mais endividado...

Sr. Patrão – ...

Sr. Empregado – O país está a passar por uma grave crise e o mesmo acontece na minha vida e na minha família...

Sr. Patrão – Estarei a ouvir bem? o Sr. Enlouqueceu?

Sr. Empregado – Hoje, o que ganho chega para poder vir trabalhar... os meus filhos passam 12 horas num colégio e pago mais de metade do meu ordenado só par poder comparecer ao serviço... A minha mulher está doente... úlcera nervosa – baixas, médicos, medicamentos estão a dar cabo do nosso orçamento que já estava a derrapar... os meus filhos estão rebeldes, exigentes e insuportáveis... a minha vida está a passar por uma crise terrível. Terrível!

Sr. Patrão – ...

Sr. Empregado – Estou muito cansado... não tenho ânimo para nada!
Os meus filhos precisam de mim e falta-me paciência para tudo: falar, ajudá-los nos estudos, brincar então nem se fala...

Sr. Patrão - ...

Sr. Empregado – A minha mulher está tão mal... deixou de rir... deu cabo dos nervos e do estômago no trabalho... a vida está muito difícil e vale tudo para agarrar um emprego... o stresse deu cabo dela... está um frangalho... eu não tenho tido muita paciência também, confesso...

Sr. Patrão - ...

Sr. Empregado – Mas estou confiante que isto vai melhorar. Conto com o seu empenho para ultrapassar esta crise. Peço-lhe que encare isto como um investimento... é preciso semear para colher depois e, garanto-lhe, um dia há-de colher os frutos do seu empenho...

Sr. Patrão
– Grrrrrrrrrrrrrr

Sr. Empregado – Eu poderia estar a dizer-lhe que já não posso contar mais consigo... mas não! O sr. já revelou que é um patrão válido! Tenho a certeza que vai dar-me um aumento, reduzir a pressão no trabalho e juntos vamos ultrapassar esta crise!

Sr. Patrão – Grrrrrrrrrrrrrrrr

Sr. Empregado – O seu empenho é fundamental! Em coisa de um ano ou dois eu já estarei com a minha vida equilibrada e nessa altura vou trabalhar com muita alegria e entusiasmo! Verá que, juntos, daremos a volta a isto!


16 maio, 2006

resultado da pesquisa



Quem, em nome da liberdade, renuncia a ser aquilo que devia ser, já se matou em vida: é um suicida de pé. A sua existência consistirá numa perpétua fuga da única realidade que era possível.
José Ortega y Gasset

Ninguém é mais escravo do que aquele que se considera livre sem o ser.

Goethe

Não é livre quem não tenha obtido domínio sobre si mesmo.
Demófilo

A liberdade, ao fim e ao cabo, não é senão a capacidade de viver com as consequências das próprias decisões.
James Mullen

Prefiro morrer de pé a viver sempre ajoelhado.
Ernesto "Che" Guevara

Não nos tornamos livres por nos negarmos a aceitar algo superior a nós, mas por aceitarmos aquilo que está realmente por cima de nós.

Goethe

Escolher é sacrificar. Que importa sacrificar algo grande em troca de algo ainda maior?
Autor desconhecido

Liberdade significa responsabilidade, É por isso que tanta gente tem medo dela.

George Bernard Shaw

Há homens que lutam um dia e são bons; Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, e estes são imprescindíveis.
Bertold Brecht

A verdadeira liberdade consiste somente em fazer o que devemos, sem sermos constrangidos a fazer o que não devemos.
Jonathan Edwards

Deixe o cavalo solto... se voltar ele é seu, se não voltar, nunca foi seu.
Autor desconhecido

O escravo tem um só senhor; o homem ambicioso tem tantos quantas as pessoas que possam contribuir para o incremento da sua fortuna.
Jean de la Bruyére

O primeiro passo para conseguirmos o que queremos na vida é decidirmos o que queremos.
Ben Stein

retirado daqui

12 maio, 2006

entrega



Ouvi, pelo ouvido direito, o rumor das águas.
Depois pelo esquerdo.
Soube assim das marés que se agitam.

Evaporei-me.
O caudal encheu os úteros,
onde todas as crianças se fazem a si mesmas.

Deu-se o contágio em todas as coisas.
Estão puros e sagrados,
todas as fontes, lagos, riachos, rios e oceanos.
E correm fora e correm dentro,
Lavam e regam as paredes das veias

e o pano das vestes de luz.

Encaminham-se os peregrinos ao lugar do banho divino.
Que a água os leve ao sítio da desova,
E que chova desse líquido que mata a grande sede.


Ouvi de toda a parte a torrente de apelos.
Não sei de pedidos nem de promessas.

Trago a lua cheia no ventre.


11 maio, 2006

hoje



aconteceu-me... a página em branco

09 maio, 2006

Resposta, responsabilidade e natureza humana

Depois de ler os comentários ao post anterior, resolvi responder através de um novo post, o qual visa fazer a ligação e integração das várias posições assumidas pelo comentadores. Diversas e até divergentes, as várias opiniões são, na minha óptica, partes inteiras de um todo, todo esse que será também uma parte inteira de outro todo maior: uma visão verdadeiramente universal.

Liberdade ou anarquia implicam necessariamente responsabilidade. Responsabilidade deriva de resposta, e portanto, é a forma como respondemos que caracteriza e, em última análise, qualifica a nossa intervenção no mundo. Está, por isso, subjacente à nossa responsabilidade a resposta que escolhemos dar em cada momento das nossas vidas.



Não somos como o cão de Pavlov. Aceitar que a nossa resposta é mecânica e insuperável é demitirmo-nos do nosso poder de escolha e, seja ela qual for, somos os únicos responsáveis por ela, mais ninguém. O Direito tabela a nossa margem de intervenção numa esfera de comportamento legal e apropriado ou, por outro lado, exclui-nos para o âmbito da ilegalidade ou do não adequado. O Direito é, no entanto, fruto da valoração que atribuímos às escolhas, e essa valoração é feita por nós. O Direito responde, por conseguinte, a necessidades ou aspirações, as quais se inscrevem numa época e num contexto social e cultural. São por isso não-fixas e podem, acredito, tornar-se adquiridas, como é hoje, por exemplo, o direito da mulher ao voto. Quando falo de Ordem, falo de uma Ordem Universal (supratemporal e não-local), a qual acolhe a diferença, mas vai além dela. Não discuto valores, se são certos ou errados, pois isso depende da avaliação e valoração de cada um. A valoração é um produto de cada indivíduo e do grupo. A minha opinião é, também ela, o valor que lhe dou, mais nada.



Somos livres de pensar ou desejar o que quisermos, inclusive, a morte de alguém, mas somos condenados se o fizermos. Somos livres de escrever, por exemplo, livros, músicas ou realizar filmes que exploram a violência gratuita, que legitimam a vingança ou sublimam técnicas de roubo. No entanto, se o fizermos e formos apanhados seremos presos. Somos livres de desenvolver técnicas de informação (?!) que exploram e promovem emoções como o ódio, a vingança ou o racismo, e somos livres de consumi-las. Pergunto: então, a liberdade do pensamento ou desejo não deveria estar também sujeita a uma responsabilização? Acho que sim, mas aí, onde o Direito não pode nem deve regular, deve regular e educar (como em tudo o resto) a consciência individual, não como censura, mas como introspecção séria e potência transformadora, a qual através do conhecimento de si próprio promove a alteração de quadros de pensamentos e formas de sentir.



Na minha opinião, nada é intrinsecamente bom ou mau, certo ou errado, correcto ou incorrecto. A valoração decorre do rótulo que atribuímos a cada coisa ou acção e foi nessa medida que Nietzsche interpelou o indivíduo - à emancipação do Homem está associada a criação dos seus próprios valores e por conseguinte das suas escolhas, sejam elas no plano mental, afectivo ou da acção. Se não precisamos do Direito para pensar e sentir, porque precisamos dele para delimitar as nossas acções? Não estaremos a subestimar o poder dos nossos pensamentos e emoções? No entanto, são estes os catalizadores que assistem às nossas acções e a todas as nossas escolhas - activas ou passivas, todas acarretam consequências para nossa própria vida e dos outros. A "regeneração humana", como descreve o José António, apela a uma intervenção individual e pessoal sobre esse domínio e, concordo, é aí que se começa verdadeiramente a mudar o mundo - no centro da questão, isto é, no interior de cada um de nós, sendo que cada um de nós é único responsável e o grande arquitecto da sua própria transformação.



Se por um lado fazemos parte de uma ordem natural, convenhamos, não somos tal qual os outros animais. Temos consciência da nossa inteligência, de nós próprios e daquilo que nos rodeia, inclusive, muito para além do nosso espaço e tempo. Problematizamos, discutimos e projectamos realidade ou realidades. Formamos e deformados o mundo que nos rodeia e a nós próprios. Temos ferramentas que nos permitem guardar memória e elaborar sobre ela. Temos a capacidade de antecipar o futuro, de esperar e de sonhar. É a consciência da nossa consciência que acresce o nosso poder de intervenção dentro e fora de nós. O nosso sistema nervoso central, a nossa mente, e todas as nossas habilidades para observar, registar, pensar, problematizar e sistematizar conferem-nos características e particularidades que nos diferenciam das outras espécies. A nossa maior maravilha - a possibilidade de indagar e conhecer - serve qualquer propósito, seja ele criar ou destruir. Neste sentido, o exercício da liberdade é tão só o livre arbitrium que assiste cada a escolha.



Nenhum outro animal pode criar ou destruir tanto quanto nós. Somos conscientes do nosso poder. Temos o dom do conhecimento, que não sendo bom nem mau, permite-nos, consoante as nossas escolhas, criar ou destruir. O conhecimento fica na antecâmara da sabedoria e, aí sim, em consciência-consciente podemos dar-nos conta, sem pruridos, do nosso poder e usá-lo independentemente do Direito vigente. A responsabilidade é parceira da liberdade. A responsabilidade é, por isso, indissociável da escolha e a escolha está intimamente relacionada com a consciência que temos daquilo que sabemos e podemos fazer. É por isso que a minha esperança é imortal - é inevitável que não tenhamos individualmente ou em grupo que depararmo-nos com o resultados das nossas escolhas. Não aspiro mudar o mundo, mas sei que posso transformar o meu próprio. Quer o perceba, quer não, as minhas escolhas (pensamentos, sentimentos, palavras e acções) ditam rumo da minha vida e interferem na vida daqueles que me rodeiam. Essa consciência responsabiliza-me, antes de mais, por mim, mas também pela marca que deixo no outro.



Concordo inteiramente com a observação da Teresa Durães, quando refere a violência que rege as leis da natureza. Mas, não posso deixar de dizer que, se nos comportássemos de tal forma, ainda assim, seríamos menos destrutivos do que temos sido até aqui. Os animais matam e de deixam morrer por imperativos de sobrevivência. Mas nenhum seria ou é capaz de destruir um floresta inteira por vingança, inveja ou ganância. Nenhum animal tortura e se regozija por isso. Nenhum animal seria capaz de, a pretexto de altíssimos valores, (que na minha opinião nada mais são do que egoísmo ou apego) prolongar artificialmente a vida de outrem, mesmo que esta seja apenas e só sofrimento. Da mesma forma que é capaz de sacrificar, verifica-se que um animal é igualmente capaz de defender as suas crias e o grupo. Até hoje, nenhuma zebra, por exemplo, fez escravas as suas companheiras para enriquecer. Nenhuma gazela criou latifúndios de vegetação, para vender depois no mercado da selva, a preço inflacionado. Nenhum leão dominante, que tenha morto as crias de um leão velho e vencido, desatou a matar a despropósito outros clãs de felinos. A luta pela sobrevivência regula-se por comportamentos brutais, mas limitados pela necessidade e capacidade destrutiva, muitíssimo menor do que a humana. O mesmo não podemos dizer sobre os motivos do (ainda pouco) humano Homo Sapiens, entre eles a ganância, o ódio, a inveja, a vingança ou o desprezo pelo outro.

O Direito é uma necessidade. Quanto mais não seja, só por isso, por ser necessário, é um sinal de insuficiência. Como referiu a Raquel, se é preciso proibir, por exemplo, a criação de organizações “perigosas” à democracia (em Portugal), é porque não nos sentimos seguros, nem de nós próprios, nem dos outros. “Os seguros são para os inseguros”, disseram-me um dia, e concordo. Se tivéssemos confiança em nós e nos outros não precisaríamos deste tipo de “seguros”. Pode dizer-se: “pois, mas a natureza humana é má... o ser humano é mau por natureza”. Não acredito. Não aceito sequer. Admito que nos temos comportado muito mal, mas isso não é o mesmo que dizer "somos maus".




Santo Agostinho, ou Agostinho de Hipona (354-430), salvo todo o seu mérito, foi, na minha opinião, um dos mais eloquentes contribuintes para esta diabolização da natureza humana. Agostinho, antes de se entregar à contemplação, filosofia e teologia e de enveredar pela vida monástica, fez um percurso muito pouco virtuoso. Viveu uma vida mundana e muito sensual. Essa experiência foi definitiva para estruturação do moralismo que pregou. A sua vivência (que deduzo pouco ou nada terá tido que ver com o amor) resultou em concepções verdadeiramente detractoras da mensagem de Cristo. Santo Agostinho desenvolveu e vendeu muito bem a tese do pecado original e disse com todas as letras que parir um filho é um acto nojento, que a mulher traz à luz em pecado e que um recém-nascido vem conspurcado pelo acto pecaminoso e vergonhoso da concepção. Segundo Agostinho já nascemos emporcalhados e maus. Ao contrário de Cristo, que pregou sermos filhos e agentes do amor, Santo Agostinho reduziu o indivíduo a uma criatura de origem vil e vergonhosa, e voltou a pôr algemas onde Cristo semeou liberdade: na consciência daquilo que somos. Institui-se o baptismo, sob pena dos “anjinhos” irem parar ao inferno e voltámos “atrás” no processo de emancipação e dignificação da vida humana, sustentada por uma corrente de pensamento, a que não posso chamar outra coisa, se não terrorismo psicológico. É claro que, com isso, a Igreja garantiu gerações de clientela vergadas sob o medo, a vergonha e o terror da punição.



Quer tenhamos consciência disto quer não, e apesar de todos os esforços do período da Renascença, Iluminismo e Moderno ficou-nos incrustado na alma a desconfiança sobre a nossa própria natureza, sobre o papel da mulher, a vergonha do corpo, a negação do prazer e da alegria de viver. Mais: fomos castrados e inibidos do exercício da liberdade/responsabilidade individual pelo justo, natural e feliz curso da nossa vida. Está cá, até hoje, que seremos sempre culpados, que somos sobretudo imperfeitos e que, portanto, a vida, sendo má é com certeza um castigo. Que "andamos cá para sofrer", como quem expia a culpa de ser mal-nascido e fruto da imperfeição, e que devemos aceitar humildemente que nada podemos fazer por nós próprios, a não ser pagar e lamentar por sermos um erro da natureza. Em suma: desconfiamos sempre das coisas boas em nós, nos outros e da vida. As más, essas sim, são consideradas verdadeiras, naturais e, grosso modo, aceites como garantidas.



Arrogo-me o direito de contrariar tudo isto e digo: somos filhos da bondade original. Somos filhos do Amor e não do pecado e estamos impregnados, desde o princípio, não com a maldade mas com o bom em nós. Assim como acreditámos na nossa imperfeição, podemos resgatar a confiança em nós próprios. E, assim como a nossa alegada fraqueza semeou medo, desconfiança e falta de amor-próprio, o resgate da nossa bondade semeará a confiança, o amor, a compaixão e o altruísmo!



E para ti, somos filhos do pecado ou do amor?

Julgo que este post responde a todos os autores dos comentários ao post anterior e que não nomeei no texto. Agradeço a todos a vossa participação e disposição para me ler.
Obrigada!

05 maio, 2006

Anarquia ou Liberdade?



O Direito é um sinal da insuficiência da consciência humana tal como ela está, no estádio em que está. A necessidade de regrar os direitos e deveres do indivíduo, admito, desconcerta-me. Não posso deixar de me sentir desconsertada diante da necessidade de haver Cartas, Tratados e Constituições para lembrar os direitos das pessoas, dos seres. Não deixo de ficar desconcertada por verificar a indispensabilidade de um papel para fixar que o direito à Vida é imperioso, de que as crianças têm o direito de serem amadas ou de que os animais devem ser tratados com respeito.

Reconheço a necessidade de todos estes compêndios de advertência, fixação e veiculação dos direitos e deveres dos indivíduos. Contudo, não deixa de ser desolador constatar que é preciso haver leis que têm de funcionar como lembretes e ao mesmo tempo como dissuasores ou ameaças: não mates, ok? Não roubes, que é feio! Não maltrates, que não é justo! Ou então... bem, serás ser punido com...


Entendo a anarquia não como uma rebaldaria ou ausência de Lei, mas como o exercício da Grande Liberdade. Curiosamente, o Islão (que não é o bicho papão que o Ocidente pinta) continua à espera do Íman, do profeta que libertará seu povo do Livro. O Íman será revelado por Deus e, um dia, quando o Homem for capaz, deixará de precisar desse mesmo Livro para regrar a sua conduta!
Pode ser uma questão de fé, pode chamar-se-lhe utopia, mas acredito: um dia não precisaremos do Direito... bastar-nos-à a nossa Consciência!


A Natureza precisa do Direito? Não!


A Natureza e o Cosmos, e inclusive, o nosso próprio corpo respondem a uma ordem intrínseca que regula per se o seu justo funcionamento. E ninguém pode negar que, sem a intervenção humana, a Natureza retomaria a sua harmonia original.


Esta é a minha anarquia - a da liberdade fundada na Consciência! E repito, tal como escreveu Elisa Lucinda e declamou Ana Carolina: “Minha esperança é imortal... imortal! Sei que não vai dar para mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar para mudar o final!”

E tu, no que acreditas?

04 maio, 2006

"minha esperança é imortal"


foto daqui

só de sacanagem é um poema de Elisa Lucinda, falado por Ana Carolina.

(Não conhecia nenhuma das duas)

Ouvi este poema por sugestão de Lâmina d'Água a propósito disto, e agradeço.

Obrigada! Muito obrigada!

03 maio, 2006

notícia de última hora

Fome mata seis milhões de crianças por ano
UNICEF apela a uma mudança de atitude por parte das potências mundiais

Quase seis milhões de crianças morrem todos os anos devido à fome ou à subnutrição. São números negros divulgados ontem pela UNICEF, que pede às potências mundiais uma mudança de atitude para que seja possível diminuir a mortalidade infantil em todo o Mundo.
03-05-2006 10:24, sic online

Foi através daqui, da ONE, que começou este pequeno gesto de solidariedade para com os povos mais desfavorecidos. E foi através desta Senhora, de nome Maria Árvore, a quem roubei esta frase, que vos dou a ler o seguinte:"Banco Alimentar Contra a Fome", que todos os dias ajuda a colmatar a pobreza e a fome em Portugal e que já a 6 e 7 de Maio próximo estará num supermercado próximo de si, ou então, a APAV – Associação de Apoio à Vítima por apoiar as vítimas de todos os tipos de crimes .Já agora, que não custa nada, passem por aqui se faz favor, e apoiem a velhinha UNICEF, que continua muito coerente com os seus princípios básicos. Ela agradece.Obrigado!

Segui a corrente dando as mãos a:
Jorge Moreira
Ruth Iara
Greentea


visitar The Hunger Site


visitar UNICEF

Deixo o desafio em aberto! Quem vier virá por bem! Obrigada!

02 maio, 2006

O tesouro


Sobre a matéria prima ou quinta essência

“Essa coisa é de ti mesmo que é necessário extrai-la, pois tu és a mina. Foi em ti que Deus criou essa coisa tão notável e, seja qual for o lugar onde estejas, ela está dentro de ti e não te poderá ser arrancada”
Morienus

O tesouro está em ti... o teu caminho traça o mapa, e não o contrário. Segue o teu coração, sede da verdade. Nele reside o Olho - a tua consciência-consciente que ... Cada verdade que despertares em ti é uma pepita de ouro do teu baú.

27 abril, 2006

prece



Que eu caminhe sobre as águas celestes,
Que eu honre o brilho do sol,
Como luz do meu Olho...
Eu sou o Grande Deus,
Vindo à existência por si mesmo,
Eu componho os meus nomes,
Ontem pertence-me,
Eu conheço o amanhã,
Eu sou a Fénix,
Não há impureza em mim,
Eu conheço o caminho,
Eu vou para a ilha dos justos,
Eu chego ao país de luz,
Eu reconstituo o Olho,
Eu vejo a luz...
Eu sou um desses espíritos
Que habitam a Luz,
Que o próprio Áton criou,
Que vieram à existência,
Da raiz do seu Olho.
Eu sou uma dessas serpentes
Que criou o Olho do Mestre Único.
Eu crio o Verbo,
Eu resido no meu Olho.

Livro dos Mortos, cap. 64, 17, 78.

26 abril, 2006

soukha



No budismo, o termo soukha designa um estado de bem-estar que nasce de um espírito excepcionalmente são e sereno. É uma qualidade que contém e impregna cada experiência, cada comportamento, que abrange todas as alegrias e todas as penas. Uma tão profunda felicidade que “nada poderia alterar, como as grandes águas calmas sobre a tempestade”. É também um estado de sabedoria, livre de venenos mentais e de conhecimento, livre de cegueira sobre a verdadeira natureza das coisas.
É interessante observar que os termos sânscritos soukha e ananda, geralmente traduzidos, à falta de melhor, por “felicidade” e “alegria”, não têm verdadeiramente equivalentes nas línguas ocidentais. A expressão “bem-estar” seria o equivalente mais aproximado do conceito de soukha, se esta palavra não tivesse perdido a força para não designar mais do que um conforto exterior e um sentimento de contentamento bastante superficiais. Quanto ao termo ananda, ainda mais do que alegria, designa a irradiação do soukha, que ilumina de felicidade o instante presente e se perpetua no instante seguinte até formar um continuum a que se poderia chamar “alegria de viver”.
Soukha está estreitamente ligado à compreensão da maneira como funciona o nosso espírito e depende da nossa maneira de interpretar o mundo, porque se é difícil mudar este último, é, em compensação, possível transformar a maneira de o perceber.
(...) O contrário de soukha é expresso pelo termo sânscrito doukha, geralmente reduzido por sofrimento, desgraça ou mais precisamente “mal-estar”. Não define uma simples sensação desagradável, mas reflecte uma vulnerabilidade fundamental ao sofrimento, que pode ir até à falta de vontade de viver, ao sentimento de que a vida não vale a pena ser vivida dada a impossibilidade de se lhe descobrir o sentido. É o herói de Satre que em A Náusea vomita estas palavras: “Se me tivessem perguntado o que era a existência, teria respondido de boa-fé que não era nada, simplesmente uma forma de vazio (...) Éramos um monte de existências afectadas, embaraçadas consigo próprias, não tínhamos a menor razão para estar ali, nem uns nem outros, cada ser existente, confuso, vagamente inquieto, sentia-se a mais em relação aos outros. (...) Também eu estava a mais (...) Sonhava vagamente em suprimir-se, para destruir pelo menos uma dessas existências supérfluas.” O facto de se achar que o mundo seria melhor sem nós é uma causa frequente de suicídio.
Ora, por influentes que possam ser as condições exteriores, esse mal-estar, tal como o bem-estar, é essencialmente um estado íntimo. Compreender isto é o preliminar indispensável a uma vida que valha a pena ser vivida. Em que condições vai o nosso espírito minar a nossa alegria de viver, em que condições a vai alimentar?
Mudar a nossa visão do mundo não implica um optimismo ingénuo, nem uma euforia artificial destinada a compensar a adversidade. Enquanto a insatisfação e a frustração provenientes da confusão que reina no nosso espírito forem o nosso quinhão quotidiano, repetir durante todo o tempo “Sou feliz!” é um exercício tão fútil como voltar a pintar uma parede degradada. A busca da felicidade não consiste em ver a “vida cor-de-rosa”, nem em enganar-se quanto aos sofrimentos e imperfeições do mundo.
A felicidade também não é um estado de exaltação que se deva perpetuar a todo o custo, mas a eliminação de toxinas mentais como o ódio e a obsessão, que envenenam literalmente o espírito. Para tanto é necessário adquirir um melhor conhecimento da maneira como funciona este último e uma percepção mais justa da realidade.
(...) Em resumo, soukha é um estado de plenitude duradoura que se manifesta quando nos libertamos da cegueira mental e das emoções conflituosas. É também sabedoria que se permite perceber o mundo tal como ele é, sem véus nem deformações. É por fim, a alegria de caminhar para a liberdade interior e a bondade afectuosa que irradia para os outros.

in Em Defesa da Felicidade, Matthieu Ricard; Pergaminho



Mathieu Ricard é filho do filósofo francês Jean-François Revel. As suas principais credenciais científicas incluem o doutoramento em Genética Molecular, obtido no Instituto Pasteur, em Paris, e o trabalho que desenvolveu sob a direcção do Prémio Nobel François Jacob. Posteriormente abandonou a investigação científica para se tornar monge budista tibetano nos Himalaias. Desempenha as funções de secretário particular e intérprete de S.S. o Dalai Lama.



Soukha foi o nome que escolhi para este blog.
É, numa palavra, o meu caminho. É o sentido, a orientação que quero ter, ser e dar à minha vida.
Não sou budista. Sou o que eu sou e abraço todas as culturas e tradições que, pelo seu espírito universal, me proporcionam o conhecimento que considero fundamental para vencer e superar a minha própria ignorância, causa única e última de qualquer mal-estar ou infelicidade. Li este livro de coração aberto, disponível. Terminei-o com a emoção, alegria e comoção de quem recebeu uma prenda inestimável. Chorei. Chorei de alegria. Sou muito grata ao autor e à minha querida I., quem mo emprestou. Estou grata porque quem o escreveu fê-lo por amor, com amor e quem mo colocou nas mãos fê-lo da mesma forma. Amor gera amor. Ainda não escrevi nenhum livro... vou escrevendo folhas. Folhas de soukha, de mim para mim, de mim para quem queira receber. Obrigada a quem me lê e obrigada a quem me responde - tenho recebido imenso, e sei, estou mais rica. Obrigada.

Tem dia muito feliz.

20 abril, 2006

Fazer paz com paz



A favor da paz no Bioterra

Comecei este blog a falar da paz. Foram os meus primeiros posts.

Acredito que a paz se faz com paz, com a nossa própria antes de mais e que, por isso, esse é o primeiro passo: encontrar a paz interior, desenvolvê-la e ampliá-la.

Duvido que possa fazer-se paz com insultos, com revolta vã, com indignação apenas, ou com desassossego. Por piores que sejam os nossos inimigos externos - aqueles a quem apontamos o dedo por todas as atrocidades - os nossos piores inimigos estão dentro de nós. São a nossa revolta, ira, ignorância, intolerância, falta de benovolência, raiva, medo, angústia, insegurança, etc. Não vou repetir-me. Quem quiser pode ler agora. É apenas um longo texto... escrevi outros. Parti daí, aliás.

Para a minha concepção de paz, da paz e de como ser uma fazedora de paz, muito contribui a visão de Deepak Chopra.

Aqui fica a sua receita, para todos os dias:

Domingo: Ser paz

Segunda-feira: Pensar paz

Terça-feira: Sentir paz

Quarta-feita: Falar paz

Quinta-feira: Agir paz

Sexta-feira: Criar paz

Sábado: Partilhar paz

Hoje é dia de Agir Paz... esta é a minha acção!

19 abril, 2006

em nome do Amor



Não existe nada fora de ti, que não exista dentro de ti.
Não existe nada que busques fora de ti, que não possas encontrar em ti próprio.


Se buscas o amor, compreende que é em ti que ele se manifesta. Entende que a tua vontade de ser amado é a ânsia do amor que falta em ti próprio, por ti próprio e que procuras suprir através do amor que esperas receber dos outros. Percebe que tu és o grande fazedor, operador, dador e receptor de amor na tua vida. Não entregues a realização do amor, na tua vida, nas mãos dos outros. Não peças, não esperes. Dá e oferece, tal como gostarias que te fosse dado e oferecido. Não exijas de ninguém aquilo que ainda não obtiveste de ti: amor incondicional.




Não confundas amor-próprio com vaidade, com arrogância. Por detrás da vaidade há sempre vergonha, insegurança. A vaidade é outro nome para afirmação sublinhada, enfatizada. Só precisa impor-se quem se move na dúvida, quem duvida de si próprio. O amor não esconde nada nem revela nada. O amor é uma energia e por isso serve apenas para pôr em marcha, para criar movimento, acção. És tu, e não o outro, a única central energética que produz o amor que alimenta a tua vida, te alimenta a ti e aos que te rodeiam. Ser amado é uma resposta e um resultado da relação causa efeito – o que vai volta. Ama e, sem dúvida alguma, serás amado. A vida opera, sem esforço, o justo e eterno retorno de tudo aquilo que é gerado e posto em marcha.



Amar não é ser bonzinho. Amar é agir com amor, movido por amor, por benquerença, a ti e ao outro. É também dizer “não”, deixar ir, partir e, muitas vezes, renunciar. Amar é antes de mais libertar, a ti e aos outros das condições que colocamos, tantas vezes, no exercício de amar – amar só quem nos corresponde, dar tendo em vista aquilo que queremos obter, possuir para sentir segurança, sacrificar e sacrificar-se como provas de amor.
Amar é iluminar e aquecer como a luz do Sol. É dar, indiferenciadamente, sem expectativas nem julgamentos. Amar é brilhar, gerar luz, calor, força. Amar é auto-gerar essa energia e perceber que o amor é uma responsabilidade exclusivamente nossa – que somos responsáveis por gerar essa energia nós próprios, em nós próprios, por nós, para nós e para os outros.




Por isso aceita-te, mima-te, cuida de ti. Perdoa a tuas falhas, os teus erros e todos os teus fracassos. Aprende com eles. Não há prémios nem castigos, apenas experiências. Compromete-te contigo próprio a amares-te incondicionalmente, antes de te comprometeres com o outro ou a exigires dele esse compromisso.
Amar é perdoar. Amar é aceitar. Aceita-te tal como és e ao outro tal como ele é. E, antes de julgares que a tua vida poderia ser bem melhor se o outro mudasse, pensa no quanto poderias fazer por ti e pela tua vida se tu próprio mudasses. Supera-te antes de pedires a alguém que se supere por ti, para teu benefício. Tu és a única pessoa sobre a qual podes agir e sobre a qual deténs o poder da transformação.
Por amor, olha para dentro. Por Amor...

18 abril, 2006

vontade




Apetece-me mergulhar no Oceano
e tocar o fundo do céu.

Apetece-me flutuar entre as estrelas,
boiar na luz da lua cheia,
agarrar-me ao dorso de certos cometas
e cortar as ondas das órbitas dos planetas.

E depois, num fôlego profundo,
vir à superfície,
só para encher o pulmões com o brilho do sol.

Ai, apetece-me tanto nadar na Via Láctea.
Será loucura ter uma vontade assim?


17 abril, 2006

Obrigada!!!!!


foto*

Tão bom receber flores!

Obrigada Jardineira Aprendiz

e suas mãos que trabalham as Cores da Terra

13 abril, 2006

Páscoa



Sou a semente do trigo e a planta da videira,
Sou o campo e o camponês.
Sou a terra lavrada, o tempero e a colheita.

Sou o trigo e sou a uva,
a ceifa e a ceifeira.

Sou o celeiro, o moinho e o moleiro.
Sou o vento que sopra nas velas,
e a mó que esmaga o grão.

Sou a adega e sou a pipa.
Esmago-me no cacho... e escorro.
Fermento no pão, fermento no vinho,
eu sou a levedura que repousa.

Sou o cesto e sou a taça,
Sou o pão e sou o vinho.

E porque também toda a minha fome,
é fome daquilo que eu sou,
Tão bendita é a fome quanto o manjar:

Pão e vinho, na minha mesa.

Àquele que venceu a morte com Amor, por Amor.

12 abril, 2006

Ostara-Eostre-Easter

Easter, Páscoa em inglês, deriva do nome da Deusa Eostre, ou Ostara.
Eostre, deusa anglo-saxónica da fertilidade, era (e é ainda) celebrada no Equinócio da Primavera com danças e festejos ao ar livre, no campo. Saudava-se assim a chegada da Primavera, época da fertilidade e ressurgimento da vida por excelência depois do longo Inverno.
Os símbolos associados a Eostre são o Ovo, a Lua e o Coelho, seu animal sagrado.



ilustração
O ovo e a lua, bem como o coelho são formas de dizer a fertilidade em analogia e correlação com a Natureza. É um facto que, mesmo nós mamíferos, devemos a nossa concepção à fecundação do ovo (óvulo) e que os ciclos de fertilidade feminina e da Natureza estão intimamente ligados aos ciclos do Sol e da Lua. Assim, os festejos em honra de Eostre são uma forma de dar as boas-vindas ao Sol que, por este época, se sobrepõe à noite, despertando a Natureza para esta fantástica explosão de vida.


A Lua, ovo universal, liga-se ao óvulo feminino e ao ciclo menstrual, bem como à própria evolução fecunda da vida e da Terra, sempre em eterno movimento e alternância cíclica: desde a jovem virgem - a que ainda não foi mãe; passando pela forma adulta - a mãe que concebe e faz nascer, terminando na anciã e sábia, para voltar de novo ao princípio.
A celebração da Páscoa cristã decalcou os festejos dedicados a Eostre e absorveu os seus símbolos: os ovos e amêndoas (a forma oval é por de mais evidente) e os coelhinhos da Páscoa. Sobre os coelhos, a sua simbologia associa-se à fertilidade, e deve-se fortemente ao facto de serem animais que criam as suas generosas ninhadas em tocas (no interior da terra). Ilustra-se assim o renascimento da vida a partir de um estado embrionário, de recolhimento, a qual emerge do subsolo, numa afirmação de vitória sobre a escuridão do Inverno. A própria deusa Eostre, segundo algumas versões que relatam o mito, nasceu de um ovo incubado no solo e que
eclodiu da própria terra, em analogia com a vegetação e animais que, após o período de hibernação, saem para o exterior.

foto


A Páscoa cristã, muito embora coloque o acento tónico na morte e sofrimento de Cristo, apela também à celebração do eterno retorno da vida, do renascimento e ressurreição, a qual supera e vence a morte física. É ainda, e desde sempre, uma festa calculada segundo os ciclos do Sol e da Lua em relação à Terra. O Domingo de Páscoa é sempre o primeiro Domingo depois da Lua Cheia imediatamente a seguir ao Equinócio da Primavera. Extraordinário é (ou não) que, apesar de todos os esforços conduzidos pela Igreja Católica para apagar da memória colectiva esta celebração, a “festa” de Eostre permaneça viva. Tão extraordinário quanto o é a intuição latente que nos liga à Natureza, a qual, nem os tempos nem a tirania dos homens pode apagar. E muito embora a Tradição tenha ressurgido (porque de facto nunca morreu), a verdade é que, nem mesmo àqueles que pouco ou nada sabem de deuses pagãos escapa esta alegria de estar na Primavera!

Entenda-se que o Pensamento dos Antigos, o qual elevava a Natureza a uma ordem divina através da representação mitológica e expressa pelo rito, compreendia uma leitura: tudo na Natureza é sagrado.

Muito a propósito, aqui fica a pertinente recomendação da Greentea

11 abril, 2006

Olhos que brilham



A ciência sem religião é coxa, a religião sem ciência é cega”
Albert Einstein




“Enquanto não atingires um perfeito conhecimento
daquilo que procuras, através de experiências repetidas,
pacientes e evidentes, a Natureza não te convidará
a sentares-te na sua mesa sumptuosa”

Raymond Lulle






“Porque o ouro não é um metal, o ouro é a luz...O ouro é o sol; fazer ouro é ser um deus”
Vítor Hugo



Acender o fogo que transforma a matéria e o espírito,
respirar profundamente das inspirações que alimentam o crepitar da chama
e encher-se de luz e de ouro... desse ouro que se revela no inexplicável brilho do olhar...






Para humanizar a Humanidade,
a descoberta do Fogo está ainda por acontecer










fotos daqui

10 abril, 2006

quem canta seus males espanta


Foto retirada da Internet
... ouvir com outros ouvidos esta música imperdível AQUI

Obrigada Eve On The Clouds

06 abril, 2006

pluma de avestruz


Maat e Hathor

Pesar todos os dias o coração na Tua balança
e verificar se pesa.

Tem que estar leve,
Leve como a Pluma, matéria da qual é feito o Teu nome.

Visitar a constelação:
Verdade
Justiça
Equílibrio
Harmonia

Perguntar, inquirir.
Voltar a verificar,

Se pesa,
Se me pesa.


Maat

Estar erguido
e sentir a firmeza da rectidão percorrer a medula,
inteira, intacta, erecta.
E, por isso, só por isso, ficar com o coração tão leve
como uma pluma de avestruz.

04 abril, 2006

tu és isso



Há milhares de anos, o grande sábio Uddalaka Aruni enviou Svetaketu, o filho de doze anos, para junto de um ilustre guru para que o rapaz pudesse aprender profundamente a realidade última. Durante doze anos, Svetaketu estudou com o seu mestre, tendo memorizado todos os Vedas. Ao voltar a casa, o seu pai reparou que ele agia como se tivesse aprendido tudo o que havia para aprender. Por isso, Uddalaka decidiu fazer uma pergunta ao jovem.
- Meu instruído filho, que coisa não pode ser ouvida, mas torna audição possível, não pode ser vista, mas torna a visão possível, não pode ser conhecida, mas torna o conhecimento possível, e não pode ser imaginada, mas torna a imaginação possível?
Svetaketu ficou perplexo e em silêncio.
O seu pai afirmou: “Quando conhecemos uma única partícula de barro, todos os objectos de barro são conhecidos. Quando conhecemos um único grão de ouro, todos os objectos de ouro são conhecidos. A diferença entre duas peças de joalharia em ouro está apenas no nome e forma. Na verdade, toda a joalharia é apenas ouro, e todos os potes são apenas barro. Consegues dizer-me, meu filho, que coisa é essa que, por ser conhecida, torna tudo conhecido?”
- Infelizmente o meu mestre não me deu esse conhecimento. Dais-mo vós? Disse Svetaketu.
- Muito bem – acedeu Uddalaka – Deixa-me que to diga. Todo o universo é uma realidade e essa realidade é consciência pura. A consciência pura é existência absoluta. É Um que não é seguido de um Segundo. No início, o Um disse para consigo: “Diferenciar-me-ei nos muitos e assim surgirão todos os espectadores e todos os cenários.” O Um entrou nos muito e tornou-se o Eu de cada um. Os seres de todas as coisas são o Um, e esse um é a essência subtil de tudo o que existe. Tu és isso, Svetaketu.
E continuou, “Desta forma, as abelhas produzem o mel a partir do néctar das flores, mas assim que o mel estiver pronto, o néctar não pode dizer: ‘Eu venho desta flor e tu daquela’. Também aqui, quando te fundes com o teu Eu não-local, tornas-te um só com o Eu de tudo o que existe. Este é o verdadeiro Eu de todos, e, Svetaketu, tu és isso.”
O jovem pediu, “Esclarecei-me mais, meu pai.”
Uddalaka fez uma pausa antes de prosseguir.
- O rio Ganges corre para leste. O rio Indo corre para Oeste. Contudo, ambos acabam onde por se tornar mar. Tendo-se encontrado no mar, eles deixam de pensar “Eu sou o Ganges”, ou “Eu sou o Indo”. Por isso, meu filho, também tudo o que existe tem o seu manancial no Eu não-local, e esse Eu é a essência mais subtil de tudo. É o Eu verdadeiro. Svetaketu, tu és isso.
“Quando o corpo definha e morre, o Eu não falece. O fogo não consegue consumi-lo, a água não consegue molhá-lo, o vento não consegue secá-lo, as armas não conseguem trespassá-lo. É vindouro, não tem princípio nem fim. Está para além das amarras do espaço e do tempo, impregnando todo o universo. Svetakeru, tu és isso.”
- Esclarecei-me mais, meu pai – insistiu Svetakeru cheio de entusiasmo.
Uddalaka disse, “Traz-me um fruto de uma árvore nyagrodha.
Svetaketu trouxe-lhe o fruto.
- Abre-o ao meio.
Svetaketu abriu-o.
- O que vês tu, meu filho?
- Minúsculas sementes, meu pai.
- Agora, abre uma delas.
Svetaketu abriu uma pequena semente.
- o que vês tu, meu filho?
- Vejo que nada restou, meu pai.
- Aquilo que não vês é a essência subtil, e toda a árvore nyagrodha provém dela. Assim como todo o universo emerge do Eu não-local.
Por fim, Uddalaka pediu a Svetaketu que colocasse um cubo de sal numa selha com água. No dia seguinte, o sábio pediu ao filho que lhe devolvesse o cubo de sal.
- Não posso devolver-lho – respondeu o jovem – Dissolveu-se.
Uddalaka pediu ao filho para provar a superfície da água.
- Diz-me como está?
- Está salgada, meu pai.
- Prova-a no meio e vê como está.
- Está salgada, meu pai.
- Prova-a no fundo e diz-me como está.
- Está salgada, meu pai.
- Tal como o sal está localizado no cubo e disperso na água, também o teu Eu está simultaneamente localizado no teu corpo e impregna todo o universo.
“Meu querido filho”, continuo Uddalaka, “não distingues o Eu no teu corpo, mas sem ele, as percepções não seriam possíveis. Não podes conceptualizar o Eu, mas sem ele a sua conceptualização não seria possível. Não consegues imaginar o Eu, mas sem ele a imaginação não seria possível. Contudo, quando te tornares o Eu e viveres ao nível desse Eu não-local, ficarás ligado a tudo o que existe, porque o Eu é o manancial de tudo o que existe. Verdade, realidade, existência, consciência, absoluto... chama-lhe o que quiseres, é a realidade última, o território de todos os seres. Tu és isso Svetaketu.
“Parte desse nível, Svetaketu, e todos os teus desejos se tornarão realidade, porque a partir desse nível eles não só serão os teus desejos pessoais, como estarão alinhados com os desejos de tudo o que existe.»
Svetaketu pôs em prática tudo o que aprendera e tornou-se um dos maiores visionários da tradição védica.




Esta história foi retirada de um dos mais importantes textos vedânticos, o Chandogya Upanishad, e publicada por Deepak Chopra em Os sete princípios da realização pessoal.
Esta história descreve de forma admirável a natureza do Eu; daquilo que eu sou e daquilo todos nós somos. Não se trata de um dogma de fé, trata-se, antes de mais, de uma experiência, a qual se desdobra em pequenas e grandes descobertas e num sentimento de pertença inigualável.

Sei hoje que não sou portuguesa, europeia ou mesmo uma cidadã da terra ou do mundo. Sei hoje que sou do Universo! Somos todos!
No topo deste blog, no subtítulo está “Uma árvore, um Pomar, o meu País”. O meu país é o universo e cada árvore é um coração-consciência. Estamos cá para crescer como árvores, para cima, para abraçar o Sol. Estamos cá para abrigar, perfumar e dar frutos. Estamos cá para realizar vida, amor e abundância! Estamos cá para Ser.
Obrigada a todos os que largam aqui as suas sementes e obrigada a todos os que me permitem colher dos seus ramos. Obrigada a todos!