04 abril, 2006

tu és isso



Há milhares de anos, o grande sábio Uddalaka Aruni enviou Svetaketu, o filho de doze anos, para junto de um ilustre guru para que o rapaz pudesse aprender profundamente a realidade última. Durante doze anos, Svetaketu estudou com o seu mestre, tendo memorizado todos os Vedas. Ao voltar a casa, o seu pai reparou que ele agia como se tivesse aprendido tudo o que havia para aprender. Por isso, Uddalaka decidiu fazer uma pergunta ao jovem.
- Meu instruído filho, que coisa não pode ser ouvida, mas torna audição possível, não pode ser vista, mas torna a visão possível, não pode ser conhecida, mas torna o conhecimento possível, e não pode ser imaginada, mas torna a imaginação possível?
Svetaketu ficou perplexo e em silêncio.
O seu pai afirmou: “Quando conhecemos uma única partícula de barro, todos os objectos de barro são conhecidos. Quando conhecemos um único grão de ouro, todos os objectos de ouro são conhecidos. A diferença entre duas peças de joalharia em ouro está apenas no nome e forma. Na verdade, toda a joalharia é apenas ouro, e todos os potes são apenas barro. Consegues dizer-me, meu filho, que coisa é essa que, por ser conhecida, torna tudo conhecido?”
- Infelizmente o meu mestre não me deu esse conhecimento. Dais-mo vós? Disse Svetaketu.
- Muito bem – acedeu Uddalaka – Deixa-me que to diga. Todo o universo é uma realidade e essa realidade é consciência pura. A consciência pura é existência absoluta. É Um que não é seguido de um Segundo. No início, o Um disse para consigo: “Diferenciar-me-ei nos muitos e assim surgirão todos os espectadores e todos os cenários.” O Um entrou nos muito e tornou-se o Eu de cada um. Os seres de todas as coisas são o Um, e esse um é a essência subtil de tudo o que existe. Tu és isso, Svetaketu.
E continuou, “Desta forma, as abelhas produzem o mel a partir do néctar das flores, mas assim que o mel estiver pronto, o néctar não pode dizer: ‘Eu venho desta flor e tu daquela’. Também aqui, quando te fundes com o teu Eu não-local, tornas-te um só com o Eu de tudo o que existe. Este é o verdadeiro Eu de todos, e, Svetaketu, tu és isso.”
O jovem pediu, “Esclarecei-me mais, meu pai.”
Uddalaka fez uma pausa antes de prosseguir.
- O rio Ganges corre para leste. O rio Indo corre para Oeste. Contudo, ambos acabam onde por se tornar mar. Tendo-se encontrado no mar, eles deixam de pensar “Eu sou o Ganges”, ou “Eu sou o Indo”. Por isso, meu filho, também tudo o que existe tem o seu manancial no Eu não-local, e esse Eu é a essência mais subtil de tudo. É o Eu verdadeiro. Svetaketu, tu és isso.
“Quando o corpo definha e morre, o Eu não falece. O fogo não consegue consumi-lo, a água não consegue molhá-lo, o vento não consegue secá-lo, as armas não conseguem trespassá-lo. É vindouro, não tem princípio nem fim. Está para além das amarras do espaço e do tempo, impregnando todo o universo. Svetakeru, tu és isso.”
- Esclarecei-me mais, meu pai – insistiu Svetakeru cheio de entusiasmo.
Uddalaka disse, “Traz-me um fruto de uma árvore nyagrodha.
Svetaketu trouxe-lhe o fruto.
- Abre-o ao meio.
Svetaketu abriu-o.
- O que vês tu, meu filho?
- Minúsculas sementes, meu pai.
- Agora, abre uma delas.
Svetaketu abriu uma pequena semente.
- o que vês tu, meu filho?
- Vejo que nada restou, meu pai.
- Aquilo que não vês é a essência subtil, e toda a árvore nyagrodha provém dela. Assim como todo o universo emerge do Eu não-local.
Por fim, Uddalaka pediu a Svetaketu que colocasse um cubo de sal numa selha com água. No dia seguinte, o sábio pediu ao filho que lhe devolvesse o cubo de sal.
- Não posso devolver-lho – respondeu o jovem – Dissolveu-se.
Uddalaka pediu ao filho para provar a superfície da água.
- Diz-me como está?
- Está salgada, meu pai.
- Prova-a no meio e vê como está.
- Está salgada, meu pai.
- Prova-a no fundo e diz-me como está.
- Está salgada, meu pai.
- Tal como o sal está localizado no cubo e disperso na água, também o teu Eu está simultaneamente localizado no teu corpo e impregna todo o universo.
“Meu querido filho”, continuo Uddalaka, “não distingues o Eu no teu corpo, mas sem ele, as percepções não seriam possíveis. Não podes conceptualizar o Eu, mas sem ele a sua conceptualização não seria possível. Não consegues imaginar o Eu, mas sem ele a imaginação não seria possível. Contudo, quando te tornares o Eu e viveres ao nível desse Eu não-local, ficarás ligado a tudo o que existe, porque o Eu é o manancial de tudo o que existe. Verdade, realidade, existência, consciência, absoluto... chama-lhe o que quiseres, é a realidade última, o território de todos os seres. Tu és isso Svetaketu.
“Parte desse nível, Svetaketu, e todos os teus desejos se tornarão realidade, porque a partir desse nível eles não só serão os teus desejos pessoais, como estarão alinhados com os desejos de tudo o que existe.»
Svetaketu pôs em prática tudo o que aprendera e tornou-se um dos maiores visionários da tradição védica.




Esta história foi retirada de um dos mais importantes textos vedânticos, o Chandogya Upanishad, e publicada por Deepak Chopra em Os sete princípios da realização pessoal.
Esta história descreve de forma admirável a natureza do Eu; daquilo que eu sou e daquilo todos nós somos. Não se trata de um dogma de fé, trata-se, antes de mais, de uma experiência, a qual se desdobra em pequenas e grandes descobertas e num sentimento de pertença inigualável.

Sei hoje que não sou portuguesa, europeia ou mesmo uma cidadã da terra ou do mundo. Sei hoje que sou do Universo! Somos todos!
No topo deste blog, no subtítulo está “Uma árvore, um Pomar, o meu País”. O meu país é o universo e cada árvore é um coração-consciência. Estamos cá para crescer como árvores, para cima, para abraçar o Sol. Estamos cá para abrigar, perfumar e dar frutos. Estamos cá para realizar vida, amor e abundância! Estamos cá para Ser.
Obrigada a todos os que largam aqui as suas sementes e obrigada a todos os que me permitem colher dos seus ramos. Obrigada a todos!

23 comentários:

jorgesteves disse...

Belissima narrativa!Uma concepção talvez panteísta, mas bem positiva!
jorgesteves

Jardineira aprendiz disse...

Obrigada digo eu Sa.ra, que sempre nos mostras um bocadinho do mundo que está para lá do olhar!

sa.ra disse...

Jorge,
O Panteísmo diz-nos que tudo é animado de alma, pelo mesmo espírito... e que em tudo reside o Absoluto.
Concordo!
A água que corre numa árvore, num rio ou que flutua numa nuvem é água como em mim, água que eu também sou, fui ou serei!
Alimento-me da terra, alimento-me de catalisadores que transformam sais minerais oxigénio, dióxido de carbono, luz solar e água (que também existem no meu corpo)em energia...e faço mesmo, nesta troca generosa e extraordinária!
A água de um rio é tão sagrada como a que hidrata os meus tecidos... o oxigénio que alimenta o meu cérebro, o qual me permite ver, ouvir, pensar e sonhar é o mesmo oxigénio que foi respirado por outros, que foi transformado nas folhas verdes das árvores que me dão tanto!
Dentro ou fora de mim a realidade é só uma, apenas a sua forma muda!
Se os homens percebessem a semelhança, se sentissem que entre a uma montanha e os seus ossos não há diferença, se percebecem que entre uma galáxia e as milhares de constelações de células de que mantêm acesa a sua vida não há diferença... então, tudo seria diferente!
Mas não espero que os homens percebam...
A vida é um assunto sério, mas não um drama!
As descobertas são feitas como se víssemos através dos olhos de uma criança (a criança em nós)... aquela que não teme ser rídicula porque acredita em fadas ou vê coisas mágicas nas asas de uma borboleta!
Viver como quem brinca, diria uma amiga minha!:)
é por aí, acho!
beijos
um dia muito, muito feliz!

sa.ra disse...

:)querida jardineira aprendiz,
está dentro dos teus olhos... dentro de ti... fecha-os e vê lá se não consegues ver tudo dentro aí dentro... o teu jardim, as tuas flores!
está dentro de ti, em ti!

beijinhos!
espero que estejas melhor ou já em forma!

eveonclouds disse...

Obrigada por este texto tão bonito, mocinha! è como se a tua água se escrevesse na seiva da planta, no orvalho e no fluir do rio. Assim sendo, bebâmo-nos em homenagem ao Deus que tudo permeia, levantando o cálice das águas dos oceanos em louvor disso que nos respira! bjinho

greentea disse...

Por isso eu penso que os blogs traduzem de certo modo tudo isso - temos o nosso EU que concebe e publica um texto que será ou não assimilado por outros bloguistas, o que influenciará outros e doutros retiramos outrpos temas e outras ideias e toda esta energia circula de uma ponta à outra do Universo...
O blog, o post, o texto eo comment permite-nos estar aqui e além ao mesmo tempo, rir com um e chorar com outro e elevar a nossa mente para além do que é visivel e agradecer ao Universo por essa dádiva.

Tem uma boa noite , sa.ra. Uma noite FELIZ!

maat disse...

Que lindo!
Agradeço a esta " célula" do universo que é a Sa.Ra, por ressoar comigo...na sinfonia do Todo.

Beijinhos,
***maat

estrela do mar disse...

Obrigada**!
És sempre bem vindos do meu blog!
Vou linkar-te, não te importas :)?
Tens imagens muito bonitas... Um dia vou "roubá-los" :P!
Obrigada mais uma vez!
Beijinhos

Misterious_Spirit disse...

Não admira então o meu entusiasmo em visitar este blog maravilhoso,em que descubro e aprendo tanto,o que é justamente o que eu procuro!

Este post está excelente! Quem souber olhar para dentro de si próprio verá essa "realidade última" -a que eu normalmente chamo de verdade. De facto somos todos UM, fazemos todos parte do mesmo do TUDO,somos todos juntos o universo! E há uma forma bem bela de o sentir, quando se está na Natureza,se fecharmos os olhos ou nos abraçarmos a uma árvore,vamos sentir esse AMOR,essa VIDA,a VERDADE! :) E estaremos então a SER e não apenas a existir,e compreenderemos que somos todos o UNIVERSO,a própria VIDA!

Gostei muitissimo,ADOREI mesmo este post! Parabéns!!

Muitos beijinhos!

ah e já agora vou ler esse livro :) parece ser muito interessante,e como «o saber não ocupa lugar»....

Maria Costa disse...

Belo!

Obrigada Sa.Ra.
Obrigada Sa.Ra.

Beijinho e um ia feliz.

sa.ra disse...

eveonclouds,
és uma tecedeira, sinto!
teces com os fios do vento... ligas juntas e enlaças com ternura!

as Tecedeiras são especialistas na respiração... talvez por isso o teu "reino" seja as nuvens e o céu azul!

fazes vestes novas, limpas e leves... lá tu teu blog e neste mundo Nosso. Servem-me mesmo à medida!

obrigada
beijos
um dia feliz!

sa.ra disse...

Greentea,
é isso que eu também penso. Mais: sinto!
um mundo sem fronteiras... sem terriório plano... estamos num momento extraordinário de acessibilidade e possibilidade de partilha.
Nunca, como hoje, os seres humanos puderam tocar-se assim... conhecer, visitar culturas longínquas, revelar segredos, partilhar conhecimento, inspiração, talentos e sonhos!
por mais perverso que este mundo esteja, ele oferece possibilidades extraordinárias de comunicação e partilha! O que fazemos com elas é da nossa responsabilidade, o que fazemos com elas é que faz toda a diferença!

acho que também se podem fazer países novos, mundos novos assim, a partir daqui!

beijinhos!
um dia muito feliz

sa.ra disse...

Maat,
Trago Maat acima da minha cabeça!
Trago Maat no coração e que Maat esteja na minha Voz!
Que o céu reine na terra, de e em Maat!
Sejamos Maat Kheru!
beijos e muito obrigada!
um dia feliz!

sa.ra disse...

querida Maria do Céu,

sinto sempre que falar consigo é o mesmo que ouvir e dizer no silêncio as coisas indizíveis!

obrigada pelo seu carinho,
o resto sente-se... essa outra parte, entra e sai no raio violeta!

beijo,
um dia muito feliz

Jardineira aprendiz disse...

Eles tinham prometido acabar o tingimento antes do fim de semana por tua causa! Agora com esta chuvinha já não sei!
:)
Beijos para ti também

Jorge Moreira disse...

Obrigado nós leitores, por virmos aqui beber tanta beleza e sabedoria.
Bem hajas, por textos tão magníficos como este.
Beijinhos,

greentea disse...

Bom dia!

Jardineira aprendiz disse...

Bom dia! Hoje não estou no meu PC, mas não resisti a vir responder a um bom dia tão bem disposto!
:)

Natureza disse...

Olá. Esse texto mostra-nos a sabedoria, mais conhecimento na natureza que existimos. É uma história muito inteligente e interesse.
beijos.
Ao proposito, obrigado por dares-me 2 sites, eu adorei é do português que outro.

Desambientado disse...

Um texto fabuloso com uma interpretação que revela uma alma imensa.
Acredita-me que gostei muito mais da interpretação.

Ruth Iara disse...

Eu não conhecia este texto e tive a alegria de conhecê-lo agora como se sempre o tivesse conhecido de tão Universal que ele se apresenta. Maravilhoso! É algo memorável que devemos guardar conosco em nossos tesouros da sabedoria.

Beijos! Obrigada por apresentar-me um conhecimento sábio tão importante!

João Barbosa disse...

É bom ler textos bem escritos. acho que vou voltar.

Ohniar disse...

Profundamente cativante,
Tocou-me particularmente,
A água salgada,
O que nós vive é sal
Que tempera a nossa água,
Enquanto nosso corpo viver
E depois
O sal é o verdadeiro Eu.

Sem palavras