14 março, 2006

jardim da paz


“Gosto imenso de viver aqui”, afirmou Tomás. “Estou sossegadinho da vida”.
Tomás tem perto de 80 anos e é natural de Cabo Verde. Está em Portugal desde 1978. Vive com a mulher há mais de 15 anos num bairro degradado de Lisboa, no concelho de Odivelas. Tomás e Lourença estão casados há 51. “Paria todo o dia”, contou a mulher. “Tive 10 filhos. Enterrei seis”.


Visitei este bairro várias vezes. Saí de lá sempre com a estranha sensação de ter estado num universo paralelo. A miséria, a pobreza atravessam o corpo e o cheio putrefacto da lixeira a céu aberto teima em não largar as narinas. Voltei sempre agoniada... pálida. Quando passava a barreira, a fronteira que divide aquele mundo do mundo “normal”, senti sempre um choque indescritível. Lá dentro, vive-se a vida comum daquele lugar. Quando se sai, sente-se o enjoo do desembarque. O "regresso a terra" provoca uma náusea inexplicável.

Naquele bairro as pessoas dormem até tarde para saltar refeições. Poupa-se na angústia de sentir fome e não ter o que comer. Na rua, correm valas de água podre e nas barracas, dentro delas, há tantas histórias quanto pessoas. Há muita miséria, muita. Mas também há sorrisos que são ensinamentos impagáveis.

Não pode entrar-se naquele aglomerado de barracas de qualquer forma. Estive lá em trabalho, protegida por um colete, cujo emblema é símbolo de amizade e ajuda. A mim permitiu-se atravessar as ruas, entrar e sentar, conversar...

No dia em que conheci o sr. Tomás, conheci também a mulher Lourença e o neto de 9 anos (O menino estava de férias no bairro. Preferia estar ali, junto dos avós e amigos, do que no apartamento na periferia de Lisboa onde vive com a mãe). Escoltaram-me bairro fora, para que não andasse sozinha. Os assaltos, mesmo em pleno dia, são frequentes. E, nesse dia, conheci um lugar fabuloso. Um lugar que é mais do que um pedaço de chão; é também um lugar psicológico, afectivo, cujo significado está para além poucos metros quadrados que ocupa: a horta. A horta do sr. Lourenço reflecte uma abundância profunda. Ali, cultiva-se alimento – alimento que nutre o corpo e a alma.
“É o meu divertimento”, declarou. “Nós que somos velhos andamos sempre a cantar”. Tomás é um homem feliz. O brilho no olhar e o sorriso aberto confirmam a declaração. “Estou no meu jardim da paz”, disse.



E, de facto, sente-se isso ali: paz, alegria, amor. O solo, a água, o sol e o céu mostram uma generosidade insuspeita naquele lugar. Começa tudo dentro de Tomás, estende-se à terra e as trocas ocorrem. Há outro mundo dentro daquele bairro de pobreza. Há sempre um mundo mais gentil em cada coração que semeia e conspira com a Natureza. Através dela contacta-se com a bondade última da Vida. Através dela compreende-se a impermanência dos ciclos e a através dela renova-se a certeza de que tudo está sempre em movimento; de que nada é definitivo e que, seguramente, o sol voltará a brilhar ao amanhecer.

7 comentários:

Jorge Moreira disse...

Belo texto.
Um olhar despreendido da vida (a sábia impermanência) e o valor pela horta, pelo seu jardim, que numa simbiose dá e recebe Amor.
A Vida é tão simples e nós que tanto complicamos.
Beijinhos,

sa.ra disse...

Pois é Jorge!
A verdadeira riqueza não está em possuir muito, mas em precisar de pouco! Está no desapego e na capacidade de fluir com a Natureza e participar na dança do Cosmos!Dar e receber, sem dúvida!
beijo
um dia feliz!

greentea disse...

que linda vivencia a tua
entrar nesses bairros só escoltado realmente mas depois tem-se um prazer de infinito de conhecermos essas pessoas q lá moram.

Era assim em África, entrei nos bairros populares, entrei nas aldeias tradicionais, acompanhada, atravessei fronteiras, guardas, estradas, muitas vezes sozinha e ninguém me fez mal.
Um dia,, uma noite tinha de sair cedo para ir apanhar o avião às 6h e tinha uma viagem de 1 h para fazer.A principio pedia a algum colega para vir comigo mas depois fazia os 100 km sozinha... Na véspera fui dizer ao segurança para não disparar q tinha de sair ainda com o recolher obrigatório : "Na sinhora ninguém faz mal"... Foi assim que andei por todo o lado em Angola, sem q ninguém me fizesse mal algum

Maria Costa disse...

A abundância que vem na Paz que se cultiva no Amor, e que chega na Colheita de um nada com Tudo.
Tão simples a Natureza.

Beijinhos.

HatA/mãe disse...

Pois é verdade, o pouco para uns é muito...para outros a abundancia estraga-os.
Parece que estiveste em Africa em trabalho humanitario...deves ter imensas coisas para contar.
Um bom dia amiga

sa.ra disse...

Bom dia noitestrelada!
vou decepcionar-te: não estive em África (mas adoraria!) e nunca fiz trabalho humanitário... (mas farei, acho, quando chegar a hora e perceber exactamante qual é minha "missão")...
esta história sobre a horta do sr. Tomás foi recolhida em Lisboa... Estou jornalista... mas sou qq outra coisa que ainda está por descobrir... Ontem, os vossos comentários deixaram-me a pensar... esta minha profissão deu-me uma coisa preciosa... conhecer gente... ouvir as suas histórias e poder contá-las! de facto, as pessoas são mesmo a melhor coisa que este trabalho me proporciona!
beijos!
um dia feliz!

greentea disse...

poias eu acho que fazemos sempre trabalho humanitário - como enfermeiros, jornalistas, professores, consultores , agricultores, serralheiros se o fizermos sem pensar apenas em nós;
até nos blogues fazemos- se quizemos - trabalho humanitário!...
e boas noites!